terça-feira, 25 de maio de 2010

"Entre arbustos e gangorras"

"...Ele a esperou na porta do colégio. Com quinze anos, era a primeira vez que se aproximava de uma garota. O rosto queimado, ele conseguiu perguntar se podia acompanhá-la. Ela disse que sim.

Sentindo-se ridículo e nervoso, ele perguntou se ela estava com pressa. Ela falou que não. Então ele perguntou se ela queria ir ao cinema. Ela disse que sim.

Não conseguindo concentrar-se no filme, ele olhava disfarçadamente para ela. Seus olhos se encontraram e ela sorria, dando-lhe a mão.

E ele perguntou, de repente, se podia beijá-la. Ela disse que sim. Então seu coração bateu mais forte, porque ele tinha certeza de que, finalmente, as coisas começariam a acontecer...

Eles se aproximavam dos sessenta anos e não mais se procuravam na cama. Mas faziam companhia um ao outro e se gostavam, do modo como as pessoas conseguem se gostar nesta idade.

Mas uma noite ele foi até o armário e pegou uma camisa colorida e escolheu sua melhor calça. E depois ela o surpreendeu passando perfume no corpo e penteando com cuidado que restava o que restava do cabelo. Ele saiu dizendo que ia visitar um amigo, mas ela entendeu logo que era caso de mulher.

Deitada, ela se preparou para uma longa espera. Uma hora mais tarde, porém, ele chegou em casa. Jogando-se na cama, acendeu um cigarro e depois outro, olhando fixamente para o teto. Ela o conhecia em todos os gestos e detalhes e soube, desde o primeiro instante, que ele havia falhado. Ela lhe estendeu uma das mãos, que ele apertou com força.


Entre arbustos e gangorras, a primeira vez foi num parque municipal. Ela simulou um orgasmo, para que ele não se decepcionasse. Mas nunca sentiu tanto medo, por causa das pessoas que passavam por perto e principalmente por causa dos guardas noturnos.

Depois ela foi para casa e verificou que havia folhas agarradas a sua pele e pequenas dores no corpo. E até hoje, apesar do medo, ela se lembra daquela noite como a melhor de sua vida.

Juntamente com outros mendigos, ela dorme sob um dos viadutos da cidade. Suas roupas estão sujas e rasgadas e seu corpo cheira mal. Quando o homem veio para perto e começou a acariciá-la, ela não chegou a consentir, mas também não o recusou. Então ele foi até o fim, afastando-se, depois, em silêncio. Ela nada obteve que se assemelhasse a um prazer, pois a única coisa que estava apta a sentir, além da fome, era um tremendo cansaço...

Ele deu um beijo nela, na boca. E depois no pescoço e no ouvido. Ela mostrou para ele a pele toda arrepiada. De cima para baixo, ele foi tirando a roupa dela, enquanto a beijava em todas as partes do corpo. Quando chegou lá embaixo, ela enterrou as unhas nos ombros dele e disse que nunca fizera aquilo antes e que aquilo era muito bom..."

Texto: Fragmentos de (Romeu e Julieta), por Sérgio Sant'Anna (Todos os direitos reservados)
Imagem: Telas de Toulouse-Lautrec

22 comentários:

  1. Gente, como é que se pede um beijo? Jurava que todos eram um tanto afoito e roubado. Não foi assim que Manoel Carlos nos ensinou?rs

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  2. Juan, texto de beleza intocável...gosto das nuances, dos tons que dá a palavra!!

    Adorei o último comentário no meu blog...

    Um super beijo!
    Mell

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  3. chorei, me emocionou!!!! estou aqui aos prantos!!!

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  4. outro dia, estava pensando, o amor deve ser o único bem comum que parece único a quem o possui. ou não possui... então li estes fragmentos e me remeteu a isso.
    deu vontade de ler o livro.

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  5. Extremamente triste e duro, mas também belo.

    Beijo Rafa.

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  6. Texto irretocável!

    Aplausos meus...

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  7. Muito bom meu caro!! muito mesmo

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  8. Ela lhe estendeu uma das mãos que ele apertou com força: que beleza todo o texto, nossa, beleza e delicadeza!

    Abraços,
    Tânia

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  9. Olá,
    A amplitude e a profundidade mostram quase tudo, se não tudo, a respeito das necessidades, das ansiedades e dos tabus que envolvem os sentimentos amorosos e carnais dos seres humanos. O que, em última análise, está por traz das máscaras que usamos e da infelicidade que comprime tantos de nós.
    Saúde e felicidade.
    JPMetz

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  10. e se a resposta fosse um não?
    o que será que teria acontecido

    que rumos levaria a esta maravilhosa estoria

    gosto sempre de pensar assim

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  11. O amor parece complelxo, mas não é, nós é que somos em nossa forma de amar, suportamos o insuportável em nome dele...E quando ele aparece, poucos são os que fogem dele...
    Belo poste...
    Bjs meu
    Mila

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  12. Tantos encontros, desencontros. Histórias cortadas, histórias contadas, histórias inventadas. Linda seleção! Um beijo, Deia

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  13. Gostei dos fragmentos das histórias de amor ou quase.

    As telas, nem preciso falar, né? Vc sabe que sou fã tbm.

    Beijo!

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  14. Nunca me acostumo com a maravilhosa diversidade cultural deste espaço. É passar aqui e levar algo de grandioso na bagagem!

    Aplausos!

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  15. Basta se ter permissão, tudo pode acontecer...
    Mas cá aqui entre nós, a emoção chega quando tbém se rouba, a partir do primeiro sim de estar com as portas abertas...

    Adorei o texto
    Bravo!

    Bjs
    Livinha

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  16. Algumas vezes, as palavras além de descreverem o momento, cortam que nem faca, de forma crua e nua, deixando somente a emoção exposta...

    bj

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  17. !!!!!!!!!!!!
    exCLAMAções
    entre
    arBUSTOs
    e
    gangÔRRAs
    !!!!!!!!!!!!

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  18. moço,
    que bela postagem.


    me deixou sem palavras esse texto.


    gosto muito de suas postagens.
    venho aqui, arrasto minha cadeira e fico só contemplando :)

    um abraço!

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- Chegue diante do quadro sem intenção preconcebida de sarcasmo.

- Olhe para a pintura do mesmo modo como olharia para uma pedra talhada. Aprecie as facetas, a originalidade da formam, a luta com a luz, a disposição da linha e das cores [...]

- Escolher um detalhe que seja a chave do conjunto, fixá-lo por um bom tempo, e o modelo surgirá.

- Nessa última comparação, deixar-se levar até as regiões da mais requintada Alusão.

Max Jacob


Que os vasos se comuniquem!

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