Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Saramago. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Continuo a ser um camponês" (Luto)


"Estamos falando da infância e tudo é muito ingênuo. Nunca se consumou nada, era pura curiosidade...Olhe, por mais que pareça um exagero, continuo sendo um camponês. Claro que nõa pelas roupas que visto ou pelo modo de falar, mas a lembrança da minha infância é tão intensa que tenho de reconhecer que a pessoa que sou, nõa o escritor, mas a pessoa, tem suas raízes ali, naquele lugar, naqueles anos e naquele lar"...

"...São traços que subsistiram por toda a minha vida. E eu mesmo não entendo por que me acontecem certas coisas, como ficar triste durante festas. Não que a alegria dos demais me incomode. É só que, quando as pessoas ao meu redor se divertem, eu me pergunto: o que estou fazendo aqui? E, acredite, nõa é por nenhum sentimento de superioridade, tem a ver com a minha incapacidade de me integrar...Até jantando entre amigos há ocasiões em que preciso me isolar. Não posso evitar..."

"Minha família era muito humilde . O fato do meu pai ser funcionário público não significa que recebesse um bom salário...Até meus 14 anos não pudemos ter sequer um pequeno apartamento para nós três...Não tive um quarto próprio até me casar, aos 22 anos. É verdadeiro esse episódio das baratas. E eu não conto para dar pena..."


"...Quando você viveu coisas como essa, ou ver que seus avós colocavam na cama os porcos para ajudá-los a sobreviver com o calor do seu corpo, é lógico que tudo isso venha a influir em você. E não me refiro ao escritor, ao Prêmio Nobel de Literatura; falo da pessoa, do modo de entender o mundo..."

"...Nunca fui um desses meninos precoces que escrevem um romance aos 6 anos. Já contei que comprei meus primeiros livros aos 19 anos, e que até então lia na biblioteca...No entando, lembro que aos 18 ou 19, conversando com meus amigos, me ocorreu dizer que seria escritor...Trabalhei como mecânico, como funcionário público, e publiquei Memorial do Convento aos 60 anos, uma idade em que muitos autores já têm sua carreira feita. Não fui ambicioso, vivi dia a dia. Disse isto na Feira de Frankfurt quando me comunicaram que havia ganho o Prêmio Nobel de Literatura: "Não nasci para isto, mas isto foi-me dado" Tive a sorte de ter uma vida longa, já que me permitiu fazer em poucos anos o que não pude ou não soube fazer antes. E não deixo de me perguntar porque acontenceu assim..."

Texto: Fragmento de uma entrevista de José Saramago para revista Entre Livros, Ed. Duetto, por Óscar López. (Todos direitos reservados). Reeditado

Imagem: Dois velhos comendo, tela de Franscisco de Goya, 1820-1823 e Foto de José Saramago

OBS: Um pedaço de mim se foi com a notítica da morte de Saramago.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

"Continuo a ser um camponês" (Luto)


"Estamos falando da infância e tudo é muito ingênuo. Nunca se consumou nada, era pura curiosidade...Olhe, por mais que pareça um exagero, continuo sendo um camponês. Claro que nõa pelas roupas que visto ou pelo modo de falar, mas a lembrança da minha infância é tão intensa que tenho de reconhecer que a pessoa que sou, nõa o escritor, mas a pessoa, tem suas raízes ali, naquele lugar, naqueles anos e naquele lar"...

"...São traços que subsistiram por toda a minha vida. E eu mesmo não entendo por que me acontecem certas coisas, como ficar triste durante festas. Não que a alegria dos demais me incomode. É só que, quando as pessoas ao meu redor se divertem, eu me pergunto: o que estou fazendo aqui? E, acredite, nõa é por nenhum sentimento de superioridade, tem a ver com a minha incapacidade de me integrar...Até jantando entre amigos há ocasiões em que preciso me isolar. Não posso evitar..."

"Minha família era muito humilde . O fato do meu pai ser funcionário público não significa que recebesse um bom salário...Até meus 14 anos não pudemos ter sequer um pequeno apartamento para nós três...Não tive um quarto próprio até me casar, aos 22 anos. É verdadeiro esse episódio das baratas. E eu não conto para dar pena..."


"...Quando você viveu coisas como essa, ou ver que seus avós colocavam na cama os porcos para ajudá-los a sobreviver com o calor do seu corpo, é lógico que tudo isso venha a influir em você. E não me refiro ao escritor, ao Prêmio Nobel de Literatura; falo da pessoa, do modo de entender o mundo..."

"...Nunca fui um desses meninos precoces que escrevem um romance aos 6 anos. Já contei que comprei meus primeiros livros aos 19 anos, e que até então lia na biblioteca...No entando, lembro que aos 18 ou 19, conversando com meus amigos, me ocorreu dizer que seria escritor...Trabalhei como mecânico, como funcionário público, e publiquei Memorial do Convento aos 60 anos, uma idade em que muitos autores já têm sua carreira feita. Não fui ambicioso, vivi dia a dia. Disse isto na Feira de Frankfurt quando me comunicaram que havia ganho o Prêmio Nobel de Literatura: "Não nasci para isto, mas isto foi-me dado" Tive a sorte de ter uma vida longa, já que me permitiu fazer em poucos anos o que não pude ou não soube fazer antes. E não deixo de me perguntar porque acontenceu assim..."

Texto: Fragmento de uma entrevista de José Saramago para revista Entre Livros, Ed. Duetto, por Óscar López. (Todos direitos reservados). Reeditado

Imagem: Dois velhos comendo, tela de Franscisco de Goya, 1820-1823 e Foto de José Saramago

OBS: Um pedaço de mim se foi com a notítica da morte de Saramago.

Related Posts with Thumbnails