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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Retrato de um cotidiano em comum...


E lá me ia, as mãos nos bolsos furados
E meu casaco era também o ideal
Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;
Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!...

Minha única calça estava em frangalhos
- Pequeno Polegar Sonhador, em minha fuga eu ia
Desfiando rimas e sob a Ursa Maior Adormecia,
Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.

Sentado à beira das estradas eu as ouvia,
Belas noites de setembro em que eu sentia
O orvalho em meu rosto como um vinho forte;


Quando compondo em meio a sombras fantásticas,
Como uma lira eu puxava os elásticos
De meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!

Texto: Ma Bohème (Fantasie), daquele que sempre me acompanha Rimbaud
Imagem: Fotográfias do grande Brassai

terça-feira, 7 de abril de 2009

Manhã

Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em folhas de ouro, — sorte a valer! Por que crime, por que erros, mereci a fraqueza atual? Vós que achais que animais dão soluços de dor, que doentes desesperam, que mortos têm pesadelos, tratai de narrar minha queda e meu sono. Quanto a mim, posso explicar-me tanto quanto o mendigo com os seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!.......... Contudo, creio ter terminado hoje a narração de minha temporada no inferno. Era realmente o inferno: o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu........... No mesmo deserto, à mesma noite, meus olhos cansados sempre despertam sob a estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar — os primeiros! — os primeiros! — os primeiros! — o Natal sobre a terra?.......... O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.



RIMBAUD, Arthur. Uma temporada no Inferno. Pp.73, Ed.Civilização Brasileira. RJ, 1957

segunda-feira, 17 de março de 2008

Uma temporada no inferno

Rimbaud

Outrora, se bem me lembro, minha vida era um festim onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, sentei abeleza nos meus joelhos. - E achei-a amarga. - E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça. Fugi. Ó feiticeiras, ó miséria, ó ódio, a vós é que meu tesouro foi confiado.
Consegui fazer desvanecer-se em meu espírito tôda a aesperança humana. Sobre tôda alegria, para estrangulá-la, dei o salto surdo da fera.
Chamei os carrascos para, parecendo, morder a coronha de seus fuzis. Chamei as calamidades, para me sufocar com a areia, ccom o sangue. O infortúnio foi o meu deus. Estendi-me na lama. Sequei-me ao ar do crime. E preguei boas peças à loucura.
E a primavera me trouxe o pavoroso riso do idiota.


RIMBAUD, Arthur. Uma temporada no inferno, Ed. Civilização Brasileira, 1957. pp, 41.

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